POR DENTRO DA

ocupação


As ruas da ocupação estavam piores que de costume: além de estreitas – mal era possível entrar de carro – estavam cobertas de água. As casinhas de madeira fechadas, todas úmidas das gotas que ainda não haviam cessado completamente, escondiam dentro de si o que aquelas famílias tinham presenciado naquela noite de chuva – nada diferente de muitas outras noites de Joinville. Era uma quarta-feira de manhã, 26 de abril, por volta das oito horas. Havia chovido muito na noite anterior – a Defesa Civil da cidade falava em ventos de 60km/h – por isso as ruas do bairro todo estavam repletas de poças e de uma lama fofa e molhada.

Luciana e sua família já estavam acordados. As duas filhas mais velhas, Maria Eduarda, de quatro anos, e Ariele, de sete, já haviam ido para a escola – nem cheguei a conhecê-las. A mais nova, Sofia, de dois anos, sentada no sofá (estava doente e, por isso, em casa). E o marido, Jurandir, consertando a telha quebrada – prejuízo da última noite. Ao entrar pela porta da frente, era fácil ouvir o chiar da chaleira no fogão, no escuro da cozinha – apesar de já ser dia. Todas as roupas da família ocupavam o pouco espaço em cima dos dois pequenos sofás da sala/cozinha, e Sofia, no meio daquela montanha de tecido desdobrado e misturado, fitava com os olhos entreabertos, mas atentos, as pessoas desconhecidas que entravam em sua casa naquela manhã. Não fazia muito que acordara.

A mãe havia colocado tudo ali por conta do destelhamento, que fez com que alguns pertences molhassem. O buraco causado pela tempestade foi no teto do seu quarto. As batidas do martelo do outro lado da parede onde eu estava deixavam claro que o marido estava ansioso e com pressa para consertar o problema. Ainda não havia notícias de quantas outras famílias passavam por situação semelhante na Ocupação Machado naquela quarta-feira.

Essa não era uma cena incomum desde que Luciana e sua família se mudaram para a ocupação, há cerca de três anos. Eles viviam na casa da sogra dela, no bairro Jardim Iririu, mas decidiram juntar seus pertences e passar a viver no Morro do Meio para cortar gastos e ter mais privacidade.

- É que morar com parente não dá certo, sabe - fala a dona de casa, entre risos tímidos. A cada pergunta da entrevista, quatro ou cinco marteladas fortes e barulhentas; a casinha de madeira tremia com todas elas.

A timidez e as respostas curtas entregavam o desconforto do casal ao dar detalhes da sua vida e rotina. Mesmo assim deixaram claro que não sentem vergonha de ser quem são, de morar onde moram.

O dia a dia da família, segundo a dona da casa, é dividido entre trabalho – para o casal – e estudo – para as meninas. Luciana contou que costuma acordar antes das 7h para arrumar as crianças e levar para a escola. Naquele dia, apenas a pequena Sofia escapou, por conta de um resfriado. Após deixar as crianças na escola municipal que fica próxima à ocupação, o casal vai trabalhar em uma lavação nas redondezas – fazem isso de segunda a sábado e, às vezes, até no domingo. A diversão fica por conta da televisão e de algumas visitas à casa da mãe de Jurandir, onde a família morava.

O sentimento que transbordou na sala de Luciana naquela manhã e que, mais tarde, percebi em todos os outros moradores com quem conversei, era um sentimento de impotência, mas não de vergonha e acanhamento. Eles pouco podem fazer a respeito da sua situação de irregularidade a não ser esperar providências do governo. Seus salários – a maioria vem de trabalhos informais – não são suficientes para bancar um aluguel em Joinville, mesmo que seja num bairro periférico como é o Morro do Meio.

A escolha muitas vezes tem de ser feita entre o aluguel e a alimentação da família no mês. Esse é o principal motivo que levou os moradores da Ocupação Machado a se estabelecerem naquela localidade, ocupando terrenos que oficialmente são destinados a equipamentos públicos do município. O processo para tentar regularizar a situação de moradia é demorado – leva em média quatro anos – e todos ficam reféns da prefeitura enquanto não tem em mãos os documentos que garantem a sua permanência tranquila no local.

O primeiro morador



Assim como a maioria dos vizinhos, seu Antenor Machado recebe com certa desconfiança no olhar os desconhecidos que chegam na sua casa fazendo perguntas sobre sua vida. O motivo são as inúmeras visitas de órgãos da prefeitura que vêm com ameaças de despejo e reintegração de posse na Ocupação Machado. Entretanto, alguns minutos de conversa são suficientes para que ele se sinta mais à vontade para contar um pouco da sua história de vida.

Sentado em uma cadeira de plástico na varanda, ele me convidou a sentar também. Seu Antenor, que se locomove com dificuldade por conta dos problemas de saúde, deixou suas muletas ao lado da cadeira e contou que sofreu um acidente de trânsito no Paraná, há alguns anos, que o deixou com uma perna mais curta. Depois disso foi cada vez mais difícil encontrar um emprego, até que conseguiu se aposentar por invalidez. Há cinco anos ele e a família – dois filhos adolescentes e uma neta bebê – moram na ocupação e sobrevivem com um salário mínimo da aposentadoria. Recebiam também o benefício Bolsa Família, que foi cortado porque a renda dele era, segundo os critérios do programa, alta demais.

- Eu cheguei aqui, fui construindo meu barraco devagarinho. Não tinha nada aqui. Depois disso foi chegando mais gente, cada um montando seu barraco também - lembrou, sério.

Seu Antenor, assim como os outros moradores que chegaram depois dele na ocupação, tem consciência da opinião que a maioria das pessoas de fora tem dele e de seus vizinhos. A explicação é comum para todos.

- A gente não tá aqui porque quer, mas porque não tem opção - lamentou. Na época em que se mudou com os filhos para a Ocupação Machado, ele havia acabado de se separar da esposa.

- Eu vim pra cá porque estava sem emprego, sem condições de pagar o aluguel e sem ter pra onde ir. Peguei meus dois filhos e vim.

Machado, além de ser o morador mais antigo da ocupação do Morro do Meio, também dá nome a ela. De acordo com ele, quando percebeu, os vizinhos haviam nomeado a localidade em sua homenagem. Tímido, diz que até hoje não entende bem o motivo. Seu genro é rápido em lembrar: “e as tantas vezes que o senhor já ajudou o pessoal aqui? ”. Eles têm pouco, mas não hesitam em ajudar quem precisa e compartilhar o que podem.

- Sempre tentei arranjar um pacote de arroz, alguma outra coisa para quem vem pedir - justifica.

Seu argumento é que o fato de ter pouco não é motivo para não compartilhar. A solidariedade é uma característica muito forte dos moradores da ocupação, unidos pela mesma causa: a luta pela moradia.

Seu Antenor vive uma rotina pouco agitada: devido aos problemas de saúde, quase não pode andar e sente muitas dores nas pernas. Ele depende da ajuda dos vizinhos para levá-lo ao médico, já que não consegue dirigir ou utilizar o transporte coletivo. Os moradores, unidos por um laço invisível, são quase sempre solícitos. As caronas são a única forma que o aposentado encontrou para sair do bairro, e só faz isso quando há necessidade.

Quando visitei sua casa para a entrevista, o que preenchia a mente dele com preocupação era uma visita aos filhos e netos que moram em Guarapuava. A viagem é longa para quem tem problemas de saúde e precisa passar horas na mesma posição dentro de um ônibus, mas, para ele, esse não é o fator mais preocupante:

- Sabe como é que é, a gente tem os netos lá, e se vai visitar tem que levar alguma coisinha. Mas eu tenho uns 12 netos, se levar nem que seja um pacote de bala já dá quase cem reais.

Liderança da comunidade



Quando Alexsandro Bellis Pereira se mudou para a Ocupação Machado, há cerca de três anos e meio, seu objetivo era deixar de ser escravo do alto custo do aluguel em Joinville e tentar dar uma condição de vida melhor para sua esposa e seus quatro filhos. Em alguns meses, ele contou, teve de escolher entre pagar o aluguel e comprar comida – dilema que pode ser absurdo para a população que habita a área central da cidade, mas comum a esses moradores antes de se estabelecerem na ocupação. Desempregado, juntou suas coisas e construiu uma pequena casa de madeira próxima à do seu sogro, Antenor Machado.

- A gente ouve muita história de pessoas que moram dentro do carro, embaixo de marquises. Para não passar por isso é que a gente ocupa.

Alexsandro, que procura estar sempre bem informado sobre a luta pela moradia e outras temáticas relacionadas, não se mostra satisfeito com a forma como o assunto é tratado na mídia. O sentimento é de indignação e, ao mesmo tempo, resignação. Já há algum tempo ele consome notícias que trazem termos preconceituosos, como se referir aos ocupantes de invasores. Ele percebe que, na maioria dos casos, as notícias dão mais voz ao poder público do que aos moradores.

Hoje, aos 29 anos, Alexsandro tem a certeza de que não é possível sair dali e tentar entrar novamente no mercado que é a compra, venda e aluguel de imóveis. Sério e firme em suas opiniões, o jovem, que é presidente da Associação dos Moradores da Ocupação Machado, culpa principalmente o descaso do governo e a corrupção pela situação em que ele e as outras quase 100 famílias da comunidade vivem.

Alexsandro fala da Associação dos Moradores da Comunidade Machado