Chovia no dia em que visitei a ocupação pela primeira vez. Eu lembro que acordei mais cedo que de costume, para uma entrevista previamente combinada com uma das moradoras de lá, a Luciana. Ela tinha sido meu primeiro contato desde que comecei a apuração e se prontificou a responder minhas perguntas.

Na noite anterior a essa visita havia chovido muito, e o barulho do vento e dos trovões era tanto que me fez acordar. De manhã cedo, entretanto, minha casa continuava intacta: nenhuma telha faltando, nenhum móvel ou roupa perdidos pelos estragos do temporal, que é comum em Joinville.

Quando cheguei na comunidade, de carro, acompanhada pelo meu pai, percebi logo de cara que os efeitos da chuva tinham sido bem diferentes para os moradores da ocupação. Havia muita lama, e uma espiada de longe na estrutura dos barracos de madeira foi suficiente para entender que uma tempestade bem menor que a que tinha acontecido seria o bastante para preocupar aquelas pessoas.

Na casa de Luciana, a família toda já estava acordada, mas não para esperar pela entrevista. Seu marido consertava o buraco causado pelo vento na noite anterior, e fez isso durante quase todo o tempo em que estive lá naquele dia.

Depois da entrevista, voltei para casa – com a minha cama quente, dentro do meu quarto espaçoso, de onde tinha saído de manhã cedo. A chuva forte não fez mais do que me acordar de um sono tranquilo. A família de Luciana e Jurandir ainda teria um dia longo pela frente, em função dos estragos causados pelo temporal. Não havia muito que eu pudesse fazer; mas podia contar sua história.




Visitei a Comunidade Machado em vários horários, dias e climas diferentes. Algumas vezes as casas ficavam todas fechadas, outras as crianças riam alto e corriam pelas ruas, concentradas nas suas brincadeiras. Quando chovia, era difícil encontrar alguém do lado de fora, e quando fazia sol os varais ficavam repletos das roupas recém lavadas. Mas duas coisas permaneciam iguais, não importava a situação: o barulho das marteladas e o latido dos cachorros.

Sons comuns, mas que nos quatro meses de produção dessa reportagem ecoaram na minha mente como os sons da ocupação. Quanto mais marteladas eram aferidas, mais eram necessárias. O trabalho nunca termina em uma ocupação irregular: sempre há algo a consertar, sempre há reparos a fazer, e sempre haverá pessoas determinadas a, de pouquinho em pouquinho, fazer do lugar onde habitam um lar.




Em todas as pesquisas que fiz sobre ocupações irregulares em Joinville, quando citavam a comunidade Machado logo em seguida vinha a explicação de que o nome era uma homenagem ao seu Antenor Machado, morador mais antigo da vizinhança. A mesma justificativa eu ouvi da boca do próprio Antenor, apesar de que ele dizia, modesto, não entender bem o motivo da homenagem.

Na última visita que fiz ao local, levei um amigo que fez as imagens aéreas desta reportagem. Entre uma conversa e outra, perguntei ao Alexsandro, um dos líderes da comunidade, qual era o nome certo da associação de moradores que existe ali. Quando ele respondeu com o nome, meu amigo quis saber o motivo do “Machado”. A resposta:

- Ah, é em parte por causa do meu sogro, que foi um dos primeiros a vir pra cá, e em parte porque todo pessoal aqui começou suas casinhas por conta própria, no machado mesmo.


As crianças brincavam nas ruas estreitas da comunidade Machado quase todas as vezes em que fui até lá. Os chinelinhos se arrastavam, correndo atrás de bolas, dos cachorros que passavam, dos seus brinquedos e do que quer que estivessem imaginando. Em nenhum momento se importaram com a moça desconhecida que passeava pela vizinhança em busca de histórias. Diferente dos adultos que, habituados às visitas da prefeitura, ficam naturalmente desconfiados.

No dia em que fiz as imagens aéreas, fazia sol e o céu estava lindo. As crianças brincavam em outra rua ou dentro de suas casas. Mas, minutos depois de ligar o equipamento e colocar o drone no ar, elas apareceram, curiosíssimas. O barulho era parecido com o de um enxame de abelhas, só um pouco mais alto. Não demorou e os pares de olhinhos curiosos já eram mais do que se pode contar em uma das mãos.

As expressões nos pequenos rostos eram de empolgação, interrogação e, suponho, vontade de pôr as mãos naquele “brinquedo voador”. Até os adultos, de dentro das casas, espiavam pela janela para ver o que acontecia. Foi uma experiência nova para eles, mas também para mim, que até então não tinha visto tanto brilho nos olhos daqueles pequenos habitantes da comunidade Machado.


Expediente


Um dos aspectos do Jornalismo que mais me encanta é a possibilidade de entrar em contato com pessoas, histórias, lugares, situações e realidades diferentes das vividas pelo repórter, o que nem todo campo de atuação pode oferecer. Por isso escolhi produzir uma reportagem multimídia sobre a Comunidade Machado para disciplina de projeto experimental, que é parte do requisito para graduação no curso de Jornalismo do Bom Jesus/Ielusc.



Produção:

Jéssica Weirich

Professora orientadora:

Kérley Winques