DE VOLTA À

comunidade


Quando cheguei na ocupação naquela tarde ensolarada, Lenoir Pariz, conhecido pelos vizinhos como Tonico, fazia reparos na casa que ele mesmo ajudou a construir. O som das marteladas podia ser ouvido a ruas de distância. Entretanto, mesmo com o esforço em tornar aquele um lugar melhor para se viver, muitos direitos básicos ainda faltam para ele os outros moradores.

- Aqui é tudo gato: não tem água nem luz certas. Nem as caçambas de lixo podem entrar na comunidade, senão levam multa da prefeitura – lamenta.

Todas as melhorias de infraestrutura precisam ser feitas pelos próprios moradores. Não adianta reclamar dos buracos ou da lama na rua para os órgãos competentes do município. Pariz contou que o trecho em frente sua casa só está em condições de passar porque ele e os vizinhos juntaram mais de R$300,00 em material para arrumar por conta própria.

Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo dos seus 52 anos, Tonico não perdeu o bom humor e a capacidade de ser grato pelas coisas boas da vida. Com um sorriso no rosto, contou que mora na Comunidade Machado há cerca de cinco anos - o que faz dele um dos moradores mais antigos, como Antenor Machado. Ele alugava uma casa com a esposa, o irmão e os dois filhos nas redondezas da comunidade. Mas, como a maioria das pessoas que foram morar na ocupação, o desemprego o obrigou a deixar o terreno regularizado.

- Na época, um conhecido meu falou ‘olha, tem um terreninho pra você, mas é invasão’. Eu peguei minha família e vim. Abri um carreiro, fui fazendo minha casinha – contou.

Ele reconhece a importância de instituições como o Centro de Direitos Humanos na luta pela moradia. O sorriso se alargou quando a conversa foi parar no assunto da regularização e o apoio do CDH nessas situações. A maior preocupação de Tonico, entretanto, é com as famílias que têm crianças.

- Como é que ficam essas crianças se a prefeitura colocar todo mundo pra fora? Elas precisam de um lugar pra morar, não podem ficar na rua.

O fardo da falta de um endereço



O preconceito com moradores de ocupações irregulares é o que mais incomoda Odenir da Costa Oliveira. Desde que foi morar na Comunidade Machado, há cerca de dois anos, ela tem dificuldades para encontrar um novo emprego justamente pelo seu endereço – ou a falta dele. Ela trabalhava como vigilante e, quando saiu do emprego, apenas o salário do marido não foi suficiente para sustentar a família – seus dois filhos adolescentes e seu irmão. A única alternativa foi ir para a Comunidade Machado.

A dona de casa leva uma vida simples, mas mais tranquila desde que se mudou. A falta de dinheiro e as dívidas já não ocupam todos os seus pensamentos. Entretanto, novas questões surgiram: a possibilidade de uma reintegração de posse a qualquer momento, por exemplo.

- Toda vez que alguém da prefeitura vem aqui a gente se sente acoado, mas não tem o que fazer.

Seu irmão, Juliano Fernandes da Costa Oliveira, de 24 anos, compartilha das mesmas preocupações. Ele é servente de pedreiro, mas está à procura de um emprego para ajudar a melhorar a renda da família. Enquanto isso, costuma fazer pequenos serviços quando tem a oportunidade.

- Eu ia nas agências de Recursos Humanos onde já sabia de uma vaga de emprego, mas eles mentiam dizendo que não tinha quando falava onde moro.

Juliano contou que, assim como a irmã mais velha, também se sentiu aliviado quando foi morar na Comunidade. Segundo ele, a situação financeira da família era difícil, e cortar os gastos com aluguel melhoram as coisas.

O filho de Odenir, Matheus Oliveira Ferreira, de 18 anos, deseja que a família toda consiga um emprego para que a vida em casa melhore. O jovem é o único da casa que tem carteira assinada, mas há menos de um mês: ele trabalha na lavação de um posto de gasolina. Havia acabado de chegar do serviço quando passei em sua casa para realizar a entrevista e ainda vestia o uniforme.

Tímido, ele contou que largou os estudos quando estava no segundo ano do ensino médio, mas pretende voltar para a sala de aula. A prioridade do momento, entretanto, é garantir que a renda familiar não fique apenas como responsabilidade do seu pai.